quarta, 09 maio 2018 11:01

“No final do triénio, espero que a SPD esteja modernizada e preparada para o futuro”

Com mais de 30 anos de história, a Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) tem, na opinião do Dr. Rui Duarte, seu presidente, características únicas e uma transversalidade muito própria. Numa conversa demorada no número 149 da Rua do Salitre, em Lisboa, onde se localiza a sede daquela instituição, foi recordada a história e perspetivado um futuro modernizado, capaz de responder às necessidades dos sócios.

My Diabetes (MD) | Comecemos pela história da Sociedade. Quando e como foi criada? E quais eram os principais propósitos?

Dr. Rui Duarte (RD) | A Sociedade Portuguesa de Diabetologia tem 31 anos de história e apareceu num momento em que se tornava muito importante atribuir um fator de união entre os diversos clínicos que se dedicavam à assistência de pessoas com diabetes no país. A SPD é uma Sociedade com características únicas, as quais se foram consolidando ao longo do tempo. Não é exclusiva de uma classe profissional: é transversal, integra todos os profissionais de saúde que se dedicam ao estudo e ao tratamento da diabetes. Inicialmente, começou num núcleo nacional multidisciplinar na área médica - nomeadamente na Endocrinologia e num grupo importante da Medicina Interna que tinha por base a experiência de anos de um grupo de Lisboa, formado na Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) e no núcleo de Diabetes e Nutrição do Prof. Doutor Pedro Eurico no Hospital de Santa Maria, seguidores do Dr. Ernesto Roma, o fundador da Diabetologia nacional.

Nos seus estatutos, a SPD tem como objetivos principais: “a intransigente defesa dos interesses científicos, sociais e morais dos seus associados, e, nomeadamente, promover, cultivar e desenvolver a investigação e o ensino da Diabetologia e Ciências afins; fomentar o convívio e troca de ideias entre sócios; dar parecer sobre todos os assuntos relacionados com a investigação e o ensino da Diabetologia e Ciências Afins; desenvolver e apoiar a formação dos seus associados, participar na elaboração dos atos normativos que importam à Diabetologia e Ciências Afins”.

 

MD | Essa foi uma forma de os especialistas portugueses se aproximarem daquilo que já era feito no plano internacional, nomeadamente nos Estados Unidos da América…

RD | Sim, já existiam a Associação Europeia para o Estudo da Diabetes (EASD) e a Associação Americana de Diabetes (ADA), entidades internacionais que já tinham a Diabetologia como centro do seu trabalho.

 

MD | Está na sociedade desde o início e que foi um dos sócios fundadores…

RD | Fui, de facto, um entre dezenas de sócios fundadores. Era na altura um jovem especialista de Medicina Interna, mas que sempre fizera a sua formação e especialização na já referenciada Clínica de Diabetes e Nutrição do HSM. Há nomes muito importantes da Diabetologia nacional que participaram na formação da SPD. Além do já mencionado Prof. Doutor Pedro Lisboa, também a Dr.ª Odete André e o Dr. Jorge Caldeira (meu mentor), o Prof. Doutor José Luís Medina e o grupo de Endocrinologia do Hospital de S. João do Porto, o Dr. Almeida Ruas, sócio número um da SPD, e o seu grupo de Endocrinologia dos Hospitais Universitários de Coimbra (HUC), o Dr. Simões Pereira, que é atualmente o nosso presidente da mesa da Assembleia-Geral, e muitos outros.

 

MD | Sente que a história da Sociedade “pesa”, que dá substância no trabalho que ainda hoje desenvolvem?

RD | Eu acho que não é só a Sociedade, mas a própria Diabetologia em Portugal que têm uma história. Ao fundar a APDP (Associação Protetora dos Diabéticos Pobres, que depois de Pobres passou a ‘de Portugal’) em 1926, o Dr. Ernesto Roma tornou-se pioneiro, não só no nosso país, mas a nível mundial, ao criar a mais antiga associação de e para diabéticos do mundo. O seu historial em Portugal é muito grande, quer a nível associativo, quer a nível educativo, e assistencial. Muitos anos depois, aparece a SPD como a sociedade científica que procura congregar toda a comunidade diabetológica nacional.

O peso, a existir, é o da própria diabetes, uma doença cada vez mais prevalente na nossa sociedade.

 

MD | Tendo em conta os desafios atuais que a diabetes tem vindo a lançar na sociedade civil, que adaptações é que a SPD teve de encontrar ao longo do tempo para acompanhar esses mesmos desafios?

RD | Uma das consequências do aumento da prevalência da diabetes foi a necessidade que a SPD sentiu em se tornar cada vez mais abrangente, integrando outras classes profissionais ligadas à saúde e à investigação.

A SPD foi crescendo. Para além dos habituais congressos científicos bienais, que desde o ano passado se tornaram anuais, com uma vertente multidisciplinar e contando com a presença regular de personalidades nacionais e internacionais da Diabetologia, houve, desde o início, uma relação próxima com a Direção-Geral da Saúde (DGS), nomeadamente através da participação e consultoria da SPD no Programa Nacional de Controlo da Diabetes, desde a sua versão mais antiga e inicial, na década de 1990. A SPD sempre foi parceira ativa na definição de políticas nacionais de intervenção e prevenção da diabetes, algo que procuramos manter. Para além disso, esta multidisciplinaridade da SPD permitiu ainda apoiar as iniciativas de diferenciação de outras classes profissionais relacionadas com cuidados e investigação da diabetes, por exemplo, enfermeiros, dietistas/nutricionistas e investigadores.

Temos uma Revista própria (a RPD) com edição trimestral e temos Bolsas e Prémios anuais para os nossos sócios. Além disso, participámos em vários estudos epidemiológicos e fomos o motor do Estudo Prevadiab, em parceria com a DGS e a APDP. E, ainda, criámos o Observatório Nacional da Diabetes.

 

MD | Os objetivos do trabalho da Sociedade têm vindo a alterar-se ao longo dos anos ou os propósitos que serviram a fundação são atuais?

RD | Os propósitos mantêm-se muito atuais, os meios de intervenção é que têm mudado. Atualmente, há mais meios e outras formas de intervir e de aparecer junto quer dos sócios, quer da sociedade civil.

 

MD | Faz parte dos sócios fundadores, chegou a ser secretário-geral durante dois mandatos e vice-presidente outros dois. Qual é o olhar de alguém que sempre “fez parte da casa” e que agora é também o seu rosto? Sente-se “preso” à história da Sociedade ou consegue manter um olhar crítico?

RD | Tem de se manter um olhar crítico, não é? Neste meu mandato e durante os primeiros tempos, a minha maior preocupação tem sido modernizar um pouco o próprio funcionamento da Sociedade e o relacionamento com os seus sócios. Precisamos olhar “para dentro” porque, por vezes, podemos estar a olhar demasiado “para fora” e esquecer que a Sociedade é, antes de mais nada, dos seus sócios. Nos tempos que correm é obrigatória uma modernização administrativa do próprio meio de comunicação com os sócios: newsletters frequentes, informações mais atualizadas e uma página na internet mais dinâmica. A própria Revista Portuguesa de Diabetes, que em 2016 comemorou 10 anos, já tem um site próprio, algo que faltava e que poderá facilitar a consulta de trabalhos e de autores das suas publicações nestes já 11 anos da publicação. Também tem sido importante dar maior autonomia e dinâmica aos grupos de estudo dentro da Sociedade, que são vários e que têm vindo a aumentar em número. Outro aspeto que demonstra um crescimento necessário e que creio estar a ser conseguido é a participação dos especialistas de Medicina Geral e Familiar (MGF) na vida da própria SPD. Esta classe de médicos enfrenta a diabetes todos os dias, a maior parte dos casos da diabetes do tipo 2. Sabemos que, em média, cerca de 10% das pessoas assistidas nos centros de saúde sofrem de diabetes e, portanto, é fundamental que a SPD se envolva cada vez mais com a MGF.

 

MD | O site da SPD apresenta cinco razões para alguém se tornar sócio, nomeadamente “estar integrado na comunidade que investiga e trata a diabetes mellitus” e “poder integrar os Grupos de Estudo da SPD”. Quem são os sócios da SPD e quantos existem atualmente? Aumentar o seu número é uma preocupação da SPD?

RD | Essa é outra das grandes tarefas a que esta direção se propôs: organizar e atualizar a base de dados dos sócios. Existem mais de 1200 sócios inscritos, entre sócios efetivos e honorários. As especialidades mais frequentes a que os sócios estão ligados são a Endocrinologia, a Medicina Interna e a MGF. Existe, também, um número muito ativo de enfermeiros, dietistas/nutricionistas e um número crescente de investigadores das Ciências Básicas vindos da área da Biologia ou da Farmácia, por exemplo, assim como outras especialidades médicas e técnicos de saúde, como podologistas e psicólogos. A Sociedade mantém a vontade de crescer.

 

MD | Mencionou a necessidade de aproximação aos sócios. De que forma é que a opinião deste grupo pesa na condução dos trabalhos e daquilo que são as prioridades da Sociedade? Os sócios são ouvidos regularmente?

RD | Para além das obrigatórias Assembleias Gerais anuais, muitos de nós cruzamo-nos nos congressos e em reuniões e falamos uns com os outros. Essas opiniões individualizadas são importantes. Além disso, a Sociedade tem uma linha aberta de contacto através do e-mail institucional, do presidente e do secretário-geral. Os grupos de Estudo da Sociedade e os seus coordenadores têm um papel muito importante na definição das prioridades da SPD.

 

MD | Sobre os Grupos de Estudo e o facto de serem uma forma de mostrarem a vida da Sociedade, quantos e quais estão atualmente ativos?

RD | São 13 no total, uns mais ativos do que outros: o Grupo de Enfermagem em Diabetes (GEFD), Pé Diabético (GEPED), Neuropatia Diabética (GRENEDI), Educação em Diabetes (GED), Diabetes e Gravidez (GEDG), Investigação Fundamental e Translacional (GIFT), Tecnologias Avançadas em Diabetes (GETAD), Recomendações Terapêuticas (GERT), Diabetes e Doença Cardiovascular (GEDDC), Diabetes na Criança e Adolescente (GEDCA), Nefropatia e Transplantação (GENT), Nutrição e Alimentação (GENA) e Cuidados de Saúde Primários (GECSP). Alguns destes têm tido maior visibilidade ao longo da história da Sociedade, nomeadamente o Grupo do Pé Diabético, da Gravidez e da Investigação Fundamental e Translacional, onde estão agrupados os vários núcleos de investigadores nacionais que se dedicam ao estudo da diabetes.  Importante é, também, o Grupo das Recomendações Terapêuticas, que, por si próprio, ou conjuntamente com outras sociedades científicas afins, procura desenvolver recomendações terapêuticas e cuja coordenação mantenho.

 

MD | A SPD assume-se como defensora dos interesses dos seus sócios e das pessoas com diabetes. Como é que a defesa desses interesses se cruza com os dados reais que anualmente são publicados em relatórios e outros documentos oficiais?

RD | A defesa da formação científica dos sócios é obrigação da SPD.

O nosso objetivo principal é proporcionar às pessoas com diabetes a melhor assistência possível e contribuir para a melhoria da sua qualidade de vida, diminuindo as complicações e garantir que estão melhor tratadas. Além disto, importa trabalhar preventivamente, contribuindo para que haja cada vez menos pessoas com diabetes. Mas, objetivamente, a SPD não tendo capacidade decisora política, exige ter a responsabilidade de consultoria.

 

MD | De consultoria e de pressão…

RD | De pressão, claro que sim. Mas é, sobretudo, de melhoria da prática clínica sob vários aspetos. Falando em políticas de saúde e de melhoria, um outro aspeto importante é o facto de a Sociedade ter assumido, sobretudo desde o presente ano, um papel de apoio às Unidades Coordenadoras Funcionais da Diabetes (UCFD). Tratam-se das Unidades Locais que derivam do próprio Programa Nacional da Diabetes e onde existe uma ligação entre os Cuidados de Saúde Primários (CSP) e as consultas da especialidade, de forma a tornar mais funcional e eficaz a nível local e regional a prestação de cuidados às pessoas com diabetes. A SPD apoia estas unidades, assim como defende a criação de Unidades Integradas de Diabetes nos Hospitais.

 

MD | E qual tem sido o feedback dessa ligação?

RD | Para já, é positivo. Apoiamos a realização de fóruns de trocas de experiências, melhoria dos cuidados prestados localmente pelo SNS. A Sociedade cumpre um papel de suporte às próprias reuniões e de cooperação naquilo que as unidades solicitem à SPD. Aí, funcionamos mais como estrutura de apoio, de suporte, consultoria. Somos mais recetores do que emissores.

 

MD | Enquanto povo, temos vindo a aprender a viver mais e melhor com diabetes? Se sim, a quê ou a quem devemos isso?

RD | Essa é uma pergunta complexa. A diabetes tem tido alguma visibilidade na comunicação social. Mas vivemos num mundo com tanto volume de comunicação e de dados que, a certa altura, receio que possa haver uma espécie de “anestesia” que só acabará nas próximas gerações. Creio que o contributo para a diminuição destas “doenças civilizacionais” deve começar na infância, através da educação. Não passa apenas pelas entidades de saúde, mas principalmente pela sociedade civil e pela adoção de estilos de vida corretos. Passa pela comunidade política nacional, regional e local, pelas autarquias que devem criar condições para que tal seja possível.

A mudança para hábitos de vida saudáveis pode ser muito difícil se não houver uma motivação muito forte e um meio ambiente e infraestruturas que favoreçam a mudança.

 

MD | Acredita nessa mudança de atitude nas próximas gerações?

RD | Acredito que haja maior consciencialização, o que passa pela educação das crianças. Os exemplos começam por ser dados em casa. Mas temos de estar todos envolvidos, a nível cultural e educacional. Podemos ver alguns exemplos de mudança, nas sociedades ocidentais, onde existem menos casos de pessoas com diabetes entre as pessoas mais cultas e “educadas”, ao contrário daquelas que têm menos acessibilidade à formação, informação, cultura e maior viabilidade económica e isso vê-se também na maior prevalência de obesidade, nas classes sociais menos favorecidas.

 

MD | Essa mudança que espera das pessoas também poderá estar relacionada com uma revolução terapêutica? Podemos aguardar essa revolução?

RD | Não diria revolução, mas evolução. Há melhores medicamentos, mas há muitos aspetos que precisam de melhorar nas pessoas com diabetes e na sua qualidade de vida. Claro que há evolução e é positiva. Hoje em dia, há menos complicações diretamente relacionadas com a diabetes, sabemos que é possível atrasá-las com melhores medicamentos, mas também através de um melhor controlo dos outros fatores com risco associado, ou seja, a tensão arterial, o colesterol, o tabaco, por exemplo. Os doentes com diabetes continuam a ter, mesmo assim, mais complicações comparativamente a quem não sofre desta patologia. Há estudos que demonstram uma diminuição das complicações. Em Portugal temos um exemplo que é paradigmático e que o Observatório tem demonstrado que é a diminuição das amputações.

 

MD | Esse é, talvez, um dos resultados mais evidentes.

RD | E também a diminuição do número de internamentos por diabetes descompensada. A diabetes é muito prevalente porque as pessoas vão sendo mais idosas e vão surgindo outras comorbilidades associadas à idade.

 

MD | Receia que essa “normalidade” de ter uma doença crónica faça com que as pessoas estejam menos alerta, ou seja, que a diabetes entre nas suas vidas e a passem a considerar normal em virtude da idade?

RD | Não creio, até porque as pessoas querem envelhecer com qualidade de vida e isso significa envelhecer com “o mínimo de doença possível”. Sabendo que para a pessoa não ter diabetes, ou tê-la bastante controlada, “basta” aderir a estilos de vida mais corretos e a uma medicação correta. Existirão outras doenças mais difíceis de controlar.

 

MD | Mas há grupos sociais mais sensíveis que outros. Talvez entre as crianças haja um impacto mais forte…

RD | Qualquer patologia crónica na infância causa grande impacto na família e na própria pessoa.

 

MD | Mencionei o exemplo das crianças pelo estigma que acarreta este “ser diferente”. Mas, neste momento, temos um milhão de portugueses “diferentes” dos outros…

RD | Um dos objetivos da chamada educação terapêutica das pessoas com diabetes é o de desmistificar essa sensação de diferença. As pessoas não têm de se sentir diferentes por serem portadoras de uma doença crónica. Se estivermos a falar de diabetes tipo 1, de facto, tem havido uma melhoria significativa da qualidade de vida ao longo dos anos, que posso atestar através do meu próprio testemunho de mais de 30 anos a acompanhar doentes. Até do ponto de vista das complicações, este é o grupo onde se verifica maior evidência de uma diminuição das mesmas e de melhoria da qualidade de vida. Julgo, mesmo, que se pode perspetivar um dia a cura para esta tipologia.

 

MD | Atualmente fala-se com muita frequência acerca da importância da qualidade de vida. Este termo era, há 30 anos, tão quotidiano quanto hoje ou era um assunto mais difícil de tornar real?

RD | Andando para trás no tempo, o que era quotidiano na diabetes era a insulina e a necessidade de fazer as “picadas”. Na altura, o que tinha impacto era a diabetes tipo 1: as crianças e os jovens. A associação à dependência da insulina era uma realidade. Havia um estigma social importante para além do pessoal e familiar. E a qualidade de vida era pior, as complicações, a morbilidade e a mortalidade eram bastante superiores. Hoje em dia, existem insulinas de melhor qualidade e mais seguras; a administração de insulina está muito melhorada com o uso de dispositivos tipo-canetas com agulhas quase indolores; as bombas de infusão contínua de insulina estão miniaturizadas e cada vez mais automatizadas e para o autocontrolo glicémico existem, finalmente, acessíveis métodos minimamente invasivos e sem necessidade das picadas nos dedos.

Quanto à diabetes tipo 2, há 30 anos atrás, não tinha a relevância que tem hoje: ela tornou-se o centro, a tal epidemia global. Um “tsunami” para a saúde das pessoas e para a economia dos países porque acarreta muitos custos.

 

MD | Que evolução gostaria de ver, em termos de investigação, na área da diabetes?

RD | Há numerosos grupos a nível mundial que estudam a diabetes ao seu nível mais ínfimo, do ponto de vista molecular e genético, e em que medida os fatores ambientais influenciam a própria genética, a própria diferenciação do organismo, das células. Creio que em qualquer tipo de doença, o desenvolvimento do conhecimento na área da genética depende do conhecimento existente sobre a forma como o meio ambiente influencia essa expressão num funcionamento celular. Nessa perspetiva, vai-se confirmar algo que já é conhecido: não há apenas uma diabetes tipo 2, mas variadíssimas formas. Pegando na expressão “todos diferentes, todos iguais”, diria, neste caso, “todos iguais, todos diferentes”. Cada vez mais caminharemos para uma individualização da abordagem da diabetes tipo 2.

 

MD | À semelhança da adaptação que também foi feita na prestação de cuidados de saúde, que é cada vez mais individualizada.

RD | Neste tipo de patologias crónicas, [a prestação de cuidados] é cada vez mais personalizada. No caso da diabetes tipo 1, é possível que a Biotecnologia evolua de tal maneira que torne possível evitar a morte celular ou a substituição da célula beta por pâncreas biológicos sem que isso implique um transplante de órgãos. A própria diferenciação das nossas células poderá vir a ser modulada para podermos ter uma cura da diabetes tipo 1 no futuro.

Por outro lado, o próprio tratamento com insulina vai-se aproximando cada vez mais do ideal do «pâncreas artificial» ou das insulinas «inteligentes» que só atuam quando necessárias, isto é: ativam-se na hiperglicemia e inativam-se na normoglicemia.

 

MD | Revê o entusiasmo e interesse com que fala de diabetes nos jovens internos das especialidades ligadas a esta patologia?

RD | Julgo que sim. Na minha prática clínica diária continuo a ter ao meu lado jovens médicos que vêm estagiar comigo. Há uma camada de jovens internos da especialidade cada vez mais interessada. Creio que uma forma de se diferenciarem e valorizarem passa pela aquisição de melhores conhecimentos em determinadas áreas e a diabetes é uma delas. Quem se interessa mais por uma determinada área tem de se atualizar e estar entusiasmado com a aquisição de novos conhecimentos.

Além disso, julgo que os currículos na formação médica pré-graduada ainda menosprezam muito a formação em diabetes, daí a necessidade que existe numa maior formação pós-graduada sentida pelos jovens médicos recém-formados.

 

MD | Prevê essas alterações na especialidade, a fim de acompanhar esta mudança na prestação de cuidados e até de evolução da Ciência propriamente dita? Considera que isso também poderá vir a alterar o papel do endocrinologista/diabetologista?

RD | As especialidades e as diferenciações em títulos não é um assunto que me preocupe muito hoje em dia. A Diabetologia não é reconhecida como uma especialidade pela Ordem dos Médicos, mas existe no dia a dia há décadas! Há congressos, livros, investigadores e clínicos diferenciados em Diabetologia em todo o mundo. A Diabetologia e os diabetologistas existem e vão continuar a existir. Há alguns anos atrás, existia um ciclo de estudos especiais em diabetes que, a nível hospitalar, permitia que uma pessoa se diferenciasse durante um ano em Diabetologia, quer fosse internista, quer endocrinologista. Eu, por exemplo, obtive o grau de consultor hospitalar de Diabetologia.

Defendo, e sempre defendi, que o importante não é o título mas a qualidade do trabalho numa unidade ou numa Clínica Integrada de Diabetologia, que deveria ser, sempre, multidisciplinar. Para mim, é um privilégio trabalhar na clínica de ambulatório na APDP, onde continuo a realizar semanalmente dezenas de consultas de diabetes num modo que se aproxima muito deste ideal de multidisciplinaridade e intercâmbio entre várias especialistas de áreas diferentes.

 

MD | Li uma citação sua que dizia que “os 10 anos (março 2006 – março 2016) da Revista Portuguesa de Diabetes (RPD) são o resultado de um esforço coletivo só possível graças ao empenho e suporte das várias Direções da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (…) mas, sobretudo, são o fruto da colaboração dos muitos autores que tiveram a capacidade para produzir trabalhos científicos em quantidade e qualidade suficientes (…).”. Quais são os principais desafios de preparar uma publicação como esta em 2018? Em 2018, quais são os principais desafios que encontra na preparação de uma publicação como esta?

RD | Há dois desafios principais. Em primeiro lugar, a criação de um site próprio da Revista é uma homenagem aos sócios e não-sócios que publicaram artigos na Revista. Era-lhes devido que fosse facilitado encontrar as referências aos trabalhos publicados e respetivos autores, o que finalmente é possível através do site. O desafio que se mantém para o novo editor – o Dr. Celestino Neves e a sua equipa – é o de manter a publicação viva, o que nem sempre é fácil. Sendo periódica, já conta com quase 12 anos de existência o que não é muito comum no nosso país. Precisamos ainda de obter a indexação, um processo que se vai renovando periodicamente. São necessários alguns requisitos que julgo que a publicação cumpre, mas isto passa por uma certificação internacional complexa que até hoje não foi obtida, mas não desistimos. Em segundo lugar, considero interessante tentar manter a revista no formato de papel, porque há tendência para tornar as publicações apenas online. Pessoalmente, acho que nesta última opção perde-se sempre alguma informação que fica dispersa e, por vezes, perdida nos e-mails

 

MD | Um desejo para este triénio?

RD | Que cheguemos ao final do mandato com o sentimento de dever cumprido. Parece uma frase feita, mas é real. Depois de 30 anos ligado à Sociedade e mantendo-me atento às diversas atividades, espero que, no final do triénio, possamos seguir caminho sem grandes sobressaltos e que o funcionamento dos sistemas administrativo e comunicacional estejam modernizados e preparados para um futuro de continuidade.

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